Neurociência e Desenvolvimento

Hoje a Neurociência virou moda. Todos os profissionais da saúde e da educação estudam, divulgam ou ouviram falar sobre ela. Conhecer como nosso cérebro se desenvolve e aprende é de fundamental importância para o crescimento de qualquer ser humano, independente da idade em que ele esteja.

Mas esses conhecimentos não são assim tão divulgados. Por exemplo: se você é pai ou mãe ou então se você um professor da creche ou da educação infantil, você saberia me dizer em que idade uma criança deveria sentar? Uma criança de 2 anos já deve falar quantas palavras? No que se refere a estimulação precoce para a linguagem, o que devemos trabalhar com uma criança de 4 anos? É bom ou ruim uma criança que pula o engatinhar e já começa a andar? Com que idade uma criança já está apta para aprender a ler a e escrever?

É necessário que tanto a família, quanto os profissionais da educação saibam essas e outras respostas. A estimulação do cérebro de uma criança ou do adolescente precisa respeitar os parâmetros daquela idade. Obrigar uma criança a aprender a ler com 4 anos só fará com que ela aprenda a detestar a leitura, pois ela ainda não tem os pré-requisitos para essa aquisição.

Pais e professores devem conhecer as etapas de desenvolvimento de uma criança. Mas a gente não faz curso para ser mãe e as nossas faculdades não ensinam isso nas licenciaturas e nos cursos de pedagogia.

Portanto, o que existe hoje são crianças cuja parte motora e de linguagem estão muito aquém do seu nível e não perceber, por exemplo, que seu filho ou seu aluno está com atraso na fala atrapalhará todo o seu desenvolvimento. O excesso de tablets, de computadores e a falta de relacionamentos interpessoais estão criando crianças sem nenhuma coordenação motora grossa ou fina e também pessoas egoístas que não sabem dividir a atenção ou respeitar o espaço do outro. E quando nossas escolas de educação infantil tentam trabalhar isso com as crianças são tolhidas por pais que só querem que a criança aprenda a ler aos quatro e importantes ensinamentos são substituídos pelo ensino de letras para um estudante que ainda não tem o cérebro maduro para isso.

A agenda dos nossos filhos cansaria qualquer executivo de uma grande empresa: inglês, educação física, futebol, balé, psicóloga, ginástica olímpica, robótica, fonoaudiologia, equoterapia, reforço escolar, psicopedagogia, … E o tempo para ser criança? Deixa isso para quando eles forem mais velhos!!! Sabe aquele tempo para brincar com seu brinquedo favorito? Sabe aquele tempo para a criança fazer nada? Sabe aquele momento para ouvir uma história contada pelos avós? Sabe aquele passeio com o seu animal de estimação? Nada disso existe, porque não sobrou tempo livre.

Por não conhecermos e não sabermos como se estimula o cérebro das nossas crianças, enchemos sua agenda com atividades que poderiam ser substituídas por coisas do dia a dia. Quem tem mais de 40 anos, deve lembrar de como era fantástico brincar de esconde-esconde, de bandeirinha, brincar de cantigas de roda com seus vizinhos. De como era legal visitar seu amigo e passar o dia na casa dele.

Não estou menosprezando a importância das terapias para algumas crianças. Mas não se esqueça: a vida nos traz aprendizados super importantes. Basta a gente saber aproveitar cada oportunidade.

Quando a gente era pequeno, a gente ficava super aborrecido quando a nossa mãe, que estava sentada no sofá da sala, falava: “filho, vai lá cozinha, e traz um copo de água para mim.” E ficávamos pensando (só pensando, porque falar ninguém tinha coragem): “porque ela não se levanta e pega?” Ou então quando éramos obrigados a arrumar o nosso quarto, que a nosso ver nem estava tão bagunçado assim. A gente também não entendia porque não podíamos comer o pedaço do bolo que estava na mesa ou então não podíamos tomar banho de piscina quando acabávamos de almoçar.

Na nossa infância, a nossa mãe trabalhava com a gente, até mesmo sem saber, as funções executivas que são tão importantes para a formação da nossa personalidade. Você sabe ou já ouviu falar sobre funções executivas? Funções executivas são todas as habilidade cognitivas que usamos para a fazer uma tarefa. Por exemplo: se você precisa chegar mais cedo no seu trabalho, você precisará se planejar, pois se você não dormir e, portanto, acordar mais cedo, não conseguirá atingir o seu propósito. Se você precisar chegar a um lugar que não foi antes, deverá se organizar para ver o endereço para não perder seu compromisso. Quando estamos em um fila do cinema ou do supermercado, precisaremos do nosso controle inibitório para sabermos esperar a nossa vez.

Isso tudo são habilidades que devem ser desenvolvidas desde a infância. Sabe quando a nossa mãe nos mandou pegar o copo de água? Ela estava trabalhando a nossa memória de trabalho, pois deveríamos fazer várias ações até que conseguíssemos levar a água a ela.

Todas as vezes que nós, pais, optamos por dar tudo pronto para nossos filhos, quando não permitimos que eles aprendam a tomar banho ou a comer sozinhos, quando impedimos que eles se arrumem ou guardem suas roupas, quando não permitimos que se sintam frustrados, quando não lhes damos tarefas diárias, estamos criando futuros adultos que não terão autonomia, que não conseguirão se organizar.

Outra importante função executiva é a flexibilidade cognitiva. Ela é a capacidade de adaptarmo-nos a situações diferenciadas do nosso dia a dia. É a nossa capacidade criativa, a utilização da nossa imaginação na resolução de problemas.

Mas a função executiva que exige mais das nossas crianças e jovens é a atenção. Conseguir manter a atenção, principalmente, em algo que não nos agrada, já é muito difícil para os adultos, imagine para as crianças. Começar com tempos mais curtos e aumentar gradativamente esse período é uma das dicas.

Trabalhar funções executivas com qualquer pessoa, crianças e jovens, em casa e na escola, só trará benefícios. Mas é essencial saber que elas são adquiridas gradualmente e que crianças são muito espertas. Se ela perceber que você não terá perseverança e não cobrará dela suas atividades, elas deixarão de fazer.

Educar crianças e jovens não é uma tarefa fácil, mas com certeza é recompensadora!

Viviani Guimarães

Neurocientista

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